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Saúde Emocional

Como vencer traumas de infância?

Os traumas de infância não ficam presos ao passado. Eles se infiltram silenciosamente na vida adulta, influenciando comportamentos, escolhas, relacionamentos e a forma como lidamos com nossas emoções. Muitas vezes, reagimos de maneira intensa a situações aparentemente simples sem compreender que essas reações têm raízes em experiências emocionais antigas, não resolvidas.

Daniel Goleman, em seu livro Inteligência Emocional (1995), dedica o capítulo 13 a discutir como experiências traumáticas moldam o cérebro emocional e como caminhos alternativos — especialmente ligados à expressão emocional — podem promover cura. Segundo ele, o trauma não é apenas um evento que aconteceu, mas uma experiência emocional que ficou registrada no sistema nervoso.

O trauma infantil surge quando a criança vive uma experiência emocional intensa — medo, abandono, humilhação, violência, negligência — sem recursos internos ou externos para processá-la. Como o cérebro infantil ainda está em desenvolvimento, especialmente o sistema responsável pela regulação emocional, essas experiências podem ser “arquivadas” de forma disfuncional.

Goleman explica que, em situações traumáticas, a amígdala cerebral assume o controle, registrando a experiência como uma ameaça extrema. Esse registro emocional pode permanecer ativo por anos, levando o adulto a reagir com ansiedade, raiva ou fuga diante de estímulos (gatilhos emocionais) que lembram, mesmo que remotamente, a dor original.

Por isso, muitas feridas emocionais da infância não se resolvem apenas com o tempo ou com a razão. O trauma é pré-verbal. Ele acontece antes que a criança tenha palavras suficientes para narrar o que sente. Assim, tentar curá-lo apenas “conversando sobre o problema” pode não alcançar as camadas mais profundas da experiência emocional. E é aqui que Goleman destaca algo poderoso: a arte como via natural de cura.

A arte como recurso terapêutico natural

Segundo Daniel Goleman, as artes — como desenho, pintura, música, dança e dramatização — são formas espontâneas e eficazes de acessar emoções profundas. Ele observa que as crianças, intuitivamente, usam o brincar e o desenhar para processar experiências difíceis. O simples ato de desenhar não é apenas uma atividade lúdica; é uma forma de expressão emocional e autorregulação.

A criança desenha o que não consegue dizer.

Ela brinca o que não consegue explicar.

Ela simboliza o que ainda não pode elaborar racionalmente.

Nesse processo, o corpo e o cérebro encontram caminhos para aliviar tensões, reorganizar emoções e dar sentido à experiência vivida.

E por que os adultos têm tanta dificuldade? Na vida adulta, muitos de nós perdemos o acesso a essas formas espontâneas de expressão. Fomos ensinados que brincar é perda de tempo, que desenhar é coisa de criança, que dançar sem técnica é ridículo. Assim, reprimimos justamente os canais que poderiam nos ajudar a curar.

Goleman aponta que adultos traumatizados tendem a ficar presos a respostas automáticas — medo, rigidez, controle excessivo — porque não encontram meios seguros de expressar emoções profundas. Recuperar o contato com atividades criativas não é imaturidade; é inteligência emocional aplicada.

Caminhos práticos para vencer traumas de infância

Vencer traumas não significa apagar o passado, mas ressignificá-lo com segurança emocional. Alguns caminhos possíveis, inspirados nos princípios de Goleman, incluem:

  • Expressão criativa: desenhar, escrever livremente, pintar ou tocar um instrumento sem foco em desempenho.
  • Brincar conscientemente: jogos, atividades manuais, jardinagem ou qualquer ação que desperte leveza e presença.
  • Reconexão corporal: dança, respiração, caminhadas conscientes — o corpo também guarda memórias emocionais.
  • Ambientes seguros: terapia, grupos de apoio ou espaços onde emoções não sejam julgadas.

O ponto central não é a técnica, mas o acesso emocional.

Daniel Goleman nos lembra que desenvolver inteligência emocional é aprender a reconhecer, acolher e regular emoções — inclusive aquelas que nasceram na infância. A cura do trauma acontece quando o cérebro emocional aprende que o perigo passou e que novas respostas são possíveis. Permitir-se criar, brincar e expressar não é voltar ao passado, mas resgatar partes de si que ficaram congeladas nele. Vencer traumas de infância é, muitas vezes, dar à criança interior aquilo que ela não recebeu: segurança, expressão e acolhimento.

Kelly Oliveira Barbosa

Cristã, leitora e escritora. Escrevo na internet para expandir minha mente constantemente inquieta: “Batei na pedra e tesouros jorrarão.”